Debate: Dawkins x Collins

14-10-2010 19:57

Há dois grandes debates entre as principais questões que envolvem “Ciência x Deus”. O mais familiar ao longo dos últimos anos é também o mais restrito deles: A evolução darwinista consegue permanecer de pé ante as críticas dos cristãos que acreditam que ela contradiz o relato da criação do livro de Gênesis? Nos últimos anos, o criacionismo mudou de curso como o progenitor espiritual do "design inteligente" (ID). Uma tentativa científica de mostrar que as lacunas existentes na narrativa evolutiva são mais significativas que a sua convincente totalidade. O ID perdeu algum de seu prestígio jornalístico em Dezembro passado quando um juiz federal indeferiu-o como pseudo-ciência, imprópria para o ensino nas escolas da Pensilvânia.

 Mas, na verdade, criacionismo e ID estão intimamente relacionados com uma questão maior, não resolvida, na qual o papel do agressor se inverte: a religião consegue se manter ante o progresso da ciência? O debate antecede a Darwin, mas a posição anti-religiosa tem sido promovida com crescente insistência recentemente por cientistas irritados com o ID e excitados, talvez intoxicados, pela crescente habilidade de suas disciplinas em mapear, quantificar e mudar a natureza da experiência humana. Imagens do cérebro mostram – em cores! – a sede física da vontade e das paixões, desafiando a noção religiosa de uma alma independente de gandulas e cartilagem. Alguns manipuladores procuram inconsistências que possam explicar os estados estáticos dos santos visionários ou, como alguns sugerem, de Jesus. Como o freudianismo no século passado, o campo da psicologia evolutiva têm gerado teorias sobre o altruísmo, e até sobre a religião, que não incluem Deus. A chamada “hipótese do multiverso” na cosmologia especula que nosso universo pode ser apenas um dentre uma cascata de universos, aumentando assim as chances de a vida ter surgindo aqui acidentalmente, sem nenhuma intervenção divina. (Se as probabilidades fossem de 1 em 1 bilhão, e você tem 300 bilhões de universos, por que não?)

 
O cardeal católico romano Christoph Schönborn apelidou os mais fervorosos cientistas desafiadores da fé de "cientismos" ou "evolucionistas" (aqueles que seguem a ciência ou a evolução como uma religião), uma vez que esperam que a ciência possa não apenas servir de ponto de referência, mas sim substituir a religião como cosmovisão e critério de avaliação. Nem todos os que trabalham com um tubo de ensaio se encaixam nessa concepção. Contudo, uma proporção crescente dos profissionais vem experimentando o que uma grande pesquisa chama de “ultraje sem precedentes”, relacionado aos insultos observados contra a pesquisa científica e a racionalidade, advindas de situações como a dita influência dos direitos cristãos sobre as políticas científicas da administração Bush, da fé fanática dos terroristas no 11 de setembro ou das reivindicações recentes feitas pelo design inteligente. Alguns se tornaram radicais o bastante para levantar uma velha bandeira: a idéia de que, diferentemente de serem respostas complementares ao desconhecido, ciência e religião estão em extremos opostos — ou, como definiu de forma simples o psicólogo Paul Bloom, da Yale, "Religião e ciência estarão em constante colisão". As prateleiras das livrarias parecem estar transbordando de livros escritos por cientistas que descrevem uma batalha mortal entre ciência e Deus — com a ciência como vencedora, ou pelo menos enfraquecendo as verdades que sustentam a fé.
 
Encontrar um porta-voz para este lado da questão não foi difícil, uma vez que Richard Dawkins, talvez seu principal polemista, acaba de lançar “Deus, um Delírio” (Companhia das Letras), uma obra cuja posição é tão clara que dispensa um subtítulo. Best-seller há cinco semanas no The New York Times (atualmente na posição no. 8), “Deus, um Delírio” ataca a fé filosoficamente, historicamente bem como cientificamente, inclinando-se pesadamente na teoria darwiniana, conhecimento que Dawkins explorou quando jovem cientista e também recentemente ao explicar a psicologia evolutiva tão lucidamente que o garantiu a cadeira Charles Simonyi para a compreensão pública da ciência na Universidade de Oxford.
 
Dawkins está surfando na onda literária ateísta. Em 2004, o livro “The End of Faith” ["O Fim da Fé"], escrito pelo estudante em neurociência Sam Harris, vendeu mais de 400.000 cópias. Harris escreveu outro livro, “Letter to a Christian Nation” ["Carta a uma Nação Cristã"], que está na 14ª posição entre os mais vendidos da Time. Em Fevereiro passado, o filósofo (Universidade de Tufts), produziu “Daniel DannettBreakink the Spell: Religion as a Natual Phenomenon” ["Quebrando o Encanto: Religião como um Fenômeno Natural"], que vendeu menos cópias, mas ajudou a disseminar o debate na arena pública.
 
Se Dennett e Harris são quase cientistas (Dennett executa um programa multidisciplinar científo-filosófico) os autores de outra parte de livros seculares agressivos são consagrados: em “Moral Minds” ["Mentes Morais"], o biólogo de Havard Marc Hauser explora as – não divinas – origens de nosso senso de certo e errado; em “Six Impossible Things Before Breakfast” ["Seis Coisas Impossíveis Antes do Café da Manhã"] pelo auto-intitulado “ateu-reducionista-materialista” biólogo Lewis Wolpert, a religião é uma dessas coisas impossíveis; Victor Stenger, um físico-astrônomo, tem um livro a ser lançado em breve chamado “God: The Failed Hypothesis” ["Deus: A Hipótese Falhou"]; Ann Druyan, viúva do arqui-cético Carl Sagan, editou alguns textos não publicados de Sagan sobre Deus e sua ausência em um livro, “The Varieties of Scientific Experience” ["As Variedades da Experiência Científica"], a ser lançado este mês.
 
Dawkins e seu exército, obviamente, têm um enxame de articulados oponentes teológicos. Mas os mais ardentes entre eles na verdade não se preocupam muito com a ciência e um argumento se sustenta parte sobre a Escritura e parte sobre a Tabela Periódica não convence ninguém. A maior parte dos americanos ocupa o meio: “nós queremos tudo”. Nós queremos comemorar os avanços da ciência e ainda nos humilharmos no Sabbath. Queremos acesso a ambos, MRIs e milagres. Queremos debates sobre temas como células-tronco sem admitir que as posições divergentes sejam tão intrinsecamente hostis como discussões infrutíferas. E para equilibrar a formidável posição de Dawkins, nós buscamos aqueles que possuem convicções religiosas, mas que possuam credibilidade científica para defender a posição de que Ciência e Deus estão em harmonia – na verdade, que a Ciência seja de Deus.
 
 
Conciliadores informais recentemente se tornaram mais ouvidos. Joan Rougharden, biólogo da Universidade de Stanford, acaba de lançar “Evolution and Christian Faith” ["Evolução e Fé Cristã"], que prevê o que ele chama de uma “forte defesa cristã” da biologia evolutiva, ilustrando os principais conceitos da disciplina com passagens bíblicas. O entomologista Edward O. Wilson, um famoso cético da fé, escreveu “The Creation: An Appeal to Save Life on Earth” ["A Criação: Um apelo para salvar a vida na Terra"], exortando os crentes e não-crentes a unirem-se em torno da conservação do planeta. Mas o principal destes debatedores em ambos os assuntos é Francis Collins.
 
A devoção de Collins à genética é, se possível, maior do que a de Dawkins. Diretor do National Human Genome Research Institute [Instituto Nacional de Pesquisa sobre o Genoma] desde 1993, ele liderou um time multinacional de 2400 cientistas que mapeou as 3 bilhões de letras bioquímicas de nossa matriz genética, um marco que o então presidente Bill Clinton honrou em 2000 em uma cerimônia na Casa Branca, comparando o gráfico do genoma com o mapa de Meriwether Lewis em sua importante exploração continental. Collins continua a liderar seu instituto de estudos do genoma e aproveitando-o para realizar descobertas médicas.
 
Ele também é um cristão decidido, que se converteu do ateísmo aos 27 anos de idade e que agora encontra tempo para aconselhar os jovens evangélicos cientistas sobre a forma de declarar a sua fé em uma ciência largamente agnóstica. Seu best-seller, “A Linguagem de Deus” (Editora Gente), contém alguns dos argumentos que ele trouxe para este debate de 90 minutos que TIME organizou entre Dawkins e Collins em nossos escritórios no Time & Life Building, na cidade de Nova York, em 30 de setembro.
 
TIME: Professor Dawkins, para uma pessoa que verdadeiramente entende sobre ciência, então Deus deve ser considerado um delírio, como o título do seu livro sugere?
 
DAWKINS: A questão se existe um criador sobrenatural, um Deus, é uma das questões mais importantes que nós temos que responder. Eu acho que esta é uma questão científica. Minha resposta é que não existe.
 
TIME: Dr. Collins, você acredita que a Ciência é compatível com a fé cristã?
 
COLLINS: Sim. A existência de Deus é verdadeira ou falsa. Mas chamar esta questão de científica implica que as ferramentas que a ciência possui podem prover a resposta. De minha perspectiva, Deus não pode ser completamente contido dentro da natureza e, portanto, está fora da capacidade da ciência prover uma resposta sobre a existência de Deus.
 
TIME: Stephen Jay Gould, um paleontologista de Havard, ficou famoso por argumentar que religião e ciência podem coexistir por ocuparem compartimentos separados. Vocês dois parecem discordar disto.
 
COLLINS: Gould estabelece um muro artificial entre as duas visões do mundo que não existe na minha vida. Por acreditar no poder criativo de Deus em ter trago tudo para existência no começo, penso que estudar o mundo natural é a melhor oportunidade que tenho para observar a majestade, a elegância e a complexidade da criação de Deus.
 
DAWKINS: Eu acho que a separação dos compartimentos por Gould foi uma jogada puramente política para trazer pessoas religiosas para o campo da ciência. Mas esta idéia é muito vazia. Existem muitos lugares onde a religião não pode se manter ao largo da relva científica. Qualquer crença em milagres é plenamente contraditória não apenas com os fatos da ciência, mas também com o espírito da ciência.
 
TIME: Professor Dawkins, você acha que a teoria evolucionária de Darwin faz mais do que simplesmente contradizer a história do Gênesis?
 
DAWKINS: Sim. Por séculos o mais poderoso argumento para a existência de Deus era o chamado “argumento do Design”: seres vivos são tão belos e elegantes e aparentemente tão complexos que eles só podem ter sido criados por um designer inteligente. Mas Darwin nos deu uma explicação muito mais simples. Seu caminho é gradual, uma crescente melhoria de um início muito simples, trabalhado passo a passo para a maior complexidade, elegância e perfeita adaptação. Cada etapa não é tão improvável para nós entendermos. Mas quando você as reuni cumulativamente através de milhões de anos, você obtém estes monstros de improbabilidade, como o cérebro humano. Isto deve nos alertar contra aqueles que, novamente, dizem que o fato de alguma coisa ser complicada, Deus deve ter feito esta coisa.
 
COLLINS: Eu não vejo como a explicação básica do Professor Dawkins sobre a evolução seja incompatível com um Deus que tenha a projetado.
 
TIME: Quando, se este projeto aconteceu?
 
COLLINS: Estando fora da natureza, Deus está também fora do Espaço e do Tempo. Assim, no momento da criação do universo, Deus poderia ter ativado a evolução, com total conhecimento do que ela geraria, talvez até incluindo nossa conversa agora. A idéia de que ele poderia prever o futuro e também nos dar um espírito e livre-arbítrio para tomar nossas decisões se torna completamente aceitável.
 
DAWKINS: Eu acho que está é uma tremenda evasão de responsabilidade. Se Deus quisesse criar a vida e os seres humanos, seria um pouco estranho ele escolher esta forma extraordinariamente complicada, esperar 10 bilhões de anos antes da vida começar, então esperar por outros 4 bilhões de anos até ter seres humanos capazes de adorar, pecar e todas estas outras coisas em que as pessoas religiosas estão interessadas.
 
COLLINS: Quem somos nós para dizer que esta é uma forma estranha de se fazer uma coisa? Eu não acho que seja do propósito de Deus fazer sua intenção absolutamente óbvia para nós. Se seu propósito era ser uma divindade que nós devêssemos buscar sem sermos forçados a isso, não teria sido sensato a ele usar o mecanismo de evolução sem estabelecer óbvias placas rodoviárias que revelem seu papel na criação?
 
TIME: Os livros de ambos sugerem que se as constantes do universo, as seis ou mais características de nosso universo, variassem de alguma forma, a vida seria impossível. Dr. Collins, você pode nos dar um exemplo?
 
COLLINS: A constante gravitacional é um exemplo. Se ela fosse uma parte em 100 milhões de milhões menor, então a expansão do universo após o Big Bang não teria acontecido do modo necessário para que a vida pudesse existir. Quando você olha para esta evidência, fica muito difícil aprovar a visão de que isto foi apenas sorte. Mas se você está disposto a considerar a possibilidade do designer, esta idéia torna-se uma explicação bastante plausível de como as coisas aconteceram, o mesmo acerca de outro evento ainda mais improvável – nossa existência.
 
DAWKINS: Pessoas que acreditam em Deus concluem que deva existir um ser divino apertador de botões que mantém esta meia dúzia de botões de constantes apertados para deixá-las exatamente no valor correto. O problema é dizer que, porque uma coisa é improvável, nós precisamos de Deus para explicá-la. O próprio Deus seria ainda mais improvável. Os físicos adotam outras explicações. Uma delas é dizer que estas seis constantes não são livres para variar. Alguma teoria unificada acabará por mostrar que estas constantes são tão absolutas quanto a circunferência e o diâmetro de um circulo. Outra alternativa existente é a "teoria do multiverso". Ela diz que talvez o universo em que estamos seja apenas um dentre uma vasta quantidade de universos. A grande maioria não vai conter vida porque eles têm uma má constante gravitacional ou esta ou aquela constante errada. Mas como o número de universos existentes cresce, temos a chance de um pequeno número de universos tenham a exata regularização destas constantes.
 
COLLINS: Esta é uma escolha interessante. Ignorando a resolução teórica, que eu penso ser improvável, você tem de dizer que existem zilhões de universos paralelos lá fora que nós não podemos observar neste momento ou aceitar que existiu um plano. Eu verdadeiramente acho que o argumento da existência de um Deus que planejou o universo mais atraente que o borbulhamento de todos estes multiversos. Então a navalha de Occam – Occam dizia que você deve escolher a explicação que for mais simples e direta – me conduz mais a acreditar em Deus do que no multiverso, que parece ser apenas uma extensão de sua imaginação.
 
DAWKINS: Eu aceito que podem existir coisas muito maiores e incompreensíveis além do que nós podemos imaginar. O que eu não entendo é porque você invoca a improbabilidade e ainda não admite que está atirando no próprio pé por postular alguma coisa tão improvável como a palavra “Deus”.
 
COLLINS: Meu Deus não é improvável para mim. Ele não precisa de uma história de criação nem ser bem ajustado por alguma outra coisa. Deus é a resposta para todas as questões “como isto veio a ser o que é?”.
 
DAWKINS: Eu penso que esta é a mãe e o pai de todas as evasões. Um dos objetivos honestos do cientista é descobrir de onde uma aparente improbabilidade vem. Agora Dr. Collins diz, “Bem, Deus fez tudo. E Deus não precisa de explicação porque Deus está fora de tudo isto”. Bem, que incrível evasão da responsabilidade de explicar. Cientistas não fazem isso. Cientistas dizem, “Estamos trabalhando nisto. Estamos lutando para compreender”.
 
COLLINS: Certamente a ciência deve continuar para ver se podemos encontrar evidencias para os multiversos que podem explicar porque nosso universo parece ser bem ajustado. Mas eu discordo do pressuposto de que qualquer coisa que possa estar fora da natureza deva ser excluída de nossa conversa. Esta é uma visão empobrecida para o tipo de questões que nós humanos podemos perguntar, como “Por que estou aqui?”, “O que acontece após a morte?”, “Existe um Deus?”. Se você se recusa a relevância destas questões, você terminará com uma probabilidade zero de Deus após examinar o mundo natural porque ele não te convence a base de provas. Mas se sua mente está aberta sobre a possibilidade de Deus existir, você pode apontar para os aspectos do universo que são consistentes com esta conclusão.
 
 
DAWKINS: Para mim, a abordagem correta é dizer que nós somos profundamente ignorantes nestes assuntos. Nós precisamos trabalhar neles. Mas repentinamente dizer que a resposta é Deus – parece-me fechar a discussão.
 
TIME: A resposta pode ser Deus?
 
DAWKINS: Pode ser alguma coisa incrivelmente grande e incompreensível e além do nosso presente entendimento.
 
COLLINS: Isto é Deus.
 
DAWKINS: Sim. Mas poderia ser qualquer um dos bilhões de deuses. Poderia ser o deus dos marcianos ou dos habitantes da Alpha Centauri. A chance de ser um Deus particular, Yaweh, o Deus de Jesus, é infimamente pequena – pelo menos, o ônus está com você para demonstrar porque você pensa que este é o caso.
 
TIME: O livro de Gênesis tem levado muitos protestantes conservadores a se oporem à evolução e alguns ainda insistem que a Terra possui apenas 6000 anos de idade.
 
COLLINS: Existem crentes sinceros que interpretam os primeiros capítulos de Genesis de forma muito literal, o que é inconsistente, francamente, com o conhecimento da idade do universo ou como organismos vivos são relacionados uns com os outros. Santo Agostinho escreveu que, basicamente, não é possível entender o que estava sendo descrito em Gênesis. Ele não foi concebido como um texto científico. Ele foi concebido como uma descrição do que Deus é, quem nós somos e como deve ser nossa relação com Deus. Agostinho explicitamente adverte contra as perspectivas muito restritas que podem fazer nossa fé correr risco de parecer ridícula. Se você der um passo para trás e fugir desta interpretação restrita, o que a Bíblia descreve é muito consistente com o Big Bang.
 
DAWKINS: Os físicos estão trabalhando no Big Bang e um dia eles podem ou não podem resolver esta questão. Entretanto, o que o Dr. Collins acabou de fazer – posso te chamar de Francis?
 
COLLINS: Oh, por favor Richard, claro.
 
DAWKINS: O que Francis acabou de dizer sobre o Gênesis foi, claro, uma pequena desavença particular entre ele e seus amigos fundamentalistas...
 
COLLINS: Não tão particular. É um tanto pública. [risos]
 
DAWKINS: ...Seria impróprio para mim me meter nesta questão e sugerir que ele salvaria a si próprio de uma enorme quantidade de problemas se ele simplesmente deixasse de dar a eles o que eles querem. Por que se preocupar com estes " palhaços"?
 
COLLINS: Richard, eu acho que não prestamos um serviço para o diálogo entre ciência e fé zombando das pessoas, chamado-as de apelidos. Isto inspira o fundamentalismo. Ateístas algumas vezes são arrogantes em suas considerações, e zombar da fé como algo que apenas um idiota se juntaria provavelmente não vai ajudar o seu caso.
 
TIME: Dr. Collins, a ressurreição é um argumento essencial da fé cristã, mas narrativas como o nascimento virginal e os milagres não minam o método científico, que depende da constância das leis da natureza?
 
COLLINS: Se você está de acordo em responder sim para um Deus fora da natureza, então não há nenhuma inconsistência em Deus escolher invadir o mundo natural de uma maneira que pareça milagrosa em raras ocasiões. Se Deus fez as leis naturais, por que ele não poderia violá-las em um momento particular e significante? E se você aceita a idéia que Cristo era também divino, o que eu creio, então a ressurreição não é, em si mesma, um grande salto lógico.
 
TIME: A noção de milagres não anula a ciência?
 
COLLINS: De forma nenhuma. Se você estiver no campo em que eu estou, um lugar onde ciência e fé podem se interagir, não há nada contraditório.
 
DAWKINS: Se alguma vez houve um “bater a porta” na cara da investigação construtiva, isto se chama milagre. Para um camponês medieval, um rádio lhe pareceria como um milagre. Todo o tipo de coisas que nós classificamos como “milagre”, à luz da ciência hoje, faríamos da mesma forma como a ciência medieval classificaria um Boeing 747 como um milagre. Francis continua dizendo coisas como “De minha perspectiva como crente”. Depois de comprar uma posição de fé, então, você se encontra perdendo seu ceticismo natural e sua credibilidade científica. Desculpe por ser tão brusco.
 
COLLINS: Richard, eu até concordo com a primeira parte do que você disse, de verdade. Mas eu desafiaria a declaração de que meus instintos científicos são menos rigorosos que os seus. A diferença é que minha presunção da possibilidade de Deus e, portanto, o supernaturalismo não é zero, e a sua é.
 
TIME: Dr. Collins, você descreveu o senso moral do ser humano não apenas como um dom de Deus, mas como um sinal de que ele existe.
 
COLLINS: Existe todo um campo de investigação que surgiu nos últimos 30 ou 40 anos – alguns o chamam de sociobiologia ou psicologia evolutiva – relacionado com nosso senso moral, onde este senso se localiza e por que valorizamos a idéia do altruísmo. Também para localizar as respostas a estas questões em adaptações comportamentais para a preservação de nossos genes. Mas se você acredita, e Richard sabe disto, que a seleção natural opera individualmente, não em grupo, por que então um individuo arriscaria seu próprio DNA fazendo algo altruísta para salvar alguém, arriscando diminuir sua chance de reprodução? De fato, podemos tentar ajudar nossa própria família porque eles partilham de nosso DNA. Ou ajudar alguém esperando que ele nos ajude depois. Mas quando você olha para o que nós realmente admiramos como as mais generosas manifestações de altruísmo, elas não são baseadas em parentesco ou reciprocidade. Um extremo exemplo pode ser Oskar Schindler que arriscou sua vida para salvar mais que mil judeus da câmara de gás. Seu ato contraria sua disposição natural de tentar salvar seus genes. Nós vemos versões menos dramáticas todos os dias. Muitos de nós pensamos que estas qualidades vêem de Deus – especialmente porque justiça e moralidade são dois dos atributos que mais prontamente nos identificam com Deus.
 
 
DAWKINS: Posso começar com uma analogia? A maior parte das pessoas entende que o desejo sexual tem haver com propagação de genes. As relações sexuais na natureza tendem a levar para a reprodução e então para mais cópias genéticas. Mas na sociedade moderna, a maior parte das relações envolve contraceptivos, criados precisamente para evitar reprodução. O altruísmo provavelmente tenha tido a mesma origem. Em nosso passado pré-histórico, vivíamos em famílias maiores, cercados por parentes cujos interesses nós queríamos promover, pois eles compartilhavam de nossos genes. Agora vivemos em grandes cidades. Nós não estamos no meio de parentes nem pessoas que vão retribuir nossas boas ações. Isto não importa. Da mesma forma como as pessoas que se envolvem em relações sexuais com contraceptivos não estão conscientes de estarem sendo motivadas por um comando para ter bebês, não passa pela nossa mente que a razão para fazermos coisas boas está baseado no fato que nossos ancestrais primitivos viviam em grupos pequenos. Esta me parece ser uma explicação bastante plausível sobre de onde veio nosso desejo por moralidade e bondade.
 
COLLINS: Argumentar que nossos bons atos são apenas uma falha darwiniana de comportamento não faz justiça com o senso que todos nós temos sobre os absolutos que estão envolvidos acerca do bem ou mal. A evolução pode explicar algumas características da lei moral, mas não pode explicar porque ela deve ter qualquer significado real. Se é apenas uma conveniência evolutiva, não há realmente nenhuma coisa como bem ou mal. Mas, para mim, nosso senso moral é bem mais que isso. A lei moral é um motivo para pensar como plausível não apenas um Deus que estabeleceu o universo em movimento, mas um Deus que se preocupa com o ser humano, porque parecemos singulares entre as criaturas do planeta para ter este bem-desenvolvido senso de moralidade. O que você disse implica que fora da mente humana, sintonizada por processos evolutivos, o bem e o mal não tem nenhum significado. Você concorda com isso?
 
DAWKINS: Esta questão que você levantou não tem sentido para mim. Bem e mal – Eu não acredito que exista pendurado por aí algo chamado bem e alguma coisa chamada mal. Eu penso que existem coisas boas que acontecem e coisas más que também acontecem.
 
COLLINS: Eu acho que esta é a fundamental diferença entre nós. Estou feliz por identificarmos isto.
 
TIME: Dr. Collins, eu sei que você favorece a abertura de novas linhas de pesquisa com células-tronco. Mas o fato de a fé ter influenciado algumas pessoas a se posicionarem contra estas pesquisas não dá a idéia de que a religião está impedindo a ciência de salvar vidas?
 
COLLINS: Permita-me dizer primeiramente que falo como cidadão e não como representante do Poder Executivo do governo americano. A impressão de que as pessoas de fé são uniformemente contra as pesquisas com células-tronco não está documentada em estudos. De fato, muitas pessoas de forte convicção religiosa acreditam que estas pesquisas podem ser uma abordagem moralmente suportável.
 
TIME: Mas na medida em que uma pessoa argumenta baseada na fé ou na Escritura além da razão, como os cientistas podem responder?
 
COLLINS: A fé não faz oposição à razão. A fé repousa sobre a razão, mas com o adicional componente da revelação. Assim, este tipo de discussão entre cientistas e crentes acontece bem facilmente. Mas nem os cientistas nem os crentes encaram sempre os princípios precisamente. Os cientistas podem ter seus julgamentos embaçados por suas aspirações profissionais. E a pura verdade é que a fé, que você pode imaginar como uma água pura e espiritual, se encontra em garrafas enferrujadas chamada seres humanos, então, algumas vezes, os bons princípios da fé podem ser distorcidos em determinadas circunstâncias.
 
DAWKINS: Para mim, questões morais como as pesquisas com células-tronco são mais relativas a se é imputado sofrimento. Neste caso, claramente não é. Os embriões não possuem sistema nervoso. Mas esta não é a questão discutida publicamente. A questão é: eles são humanos? Se você é um moralista absoluto você dirá “Estas células são seres humanos e, portanto, eles merecem algum tipo de tratamento moral especial”. O moralismo absoluto não deve vir da religião, mas geralmente vem. Nós abatemos animais não humanos em fazendas, e estes animais possuem sistema nervoso e sofrem. Pessoas de fé não estão muito interessadas no sofrimento deles.
 
COLLINS: Os humanos possuem alguma diferença moral significante em relação às vacas, em geral?
 
DAWKINS: Os humanos possuem mais responsabilidade moral, talvez porque eles possuem a capacidade de pensar racionalmente.
 
TIME: Vocês têm alguma conclusão?
 
COLLINS: Eu apenas gostaria de dizer que com pouco mais de 25 anos como cientista e cristão, eu não encontrei absolutamente nenhum conflito entre concordar com praticamente todas as conclusões de Richard sobre o mundo natural, e também dizer que eu ainda sou capaz de aceitar e abraçar a possibilidade de que existem questões sobre o mundo natural que a ciência não é capaz de prover resposta – questões sobre “por quê?” ao invés de questões sobre “como?”. Estou interessando nas questões “por quê?”. Encontrei várias destas respostas no reino espiritual. Em nenhum outro lugar mais.
 
DAWKINS: Minha mente não é fechada, como você ocasionalmente sugeriu, Francis. Minha mente está aberta para o mais maravilhoso leque de futuras possibilidades, que eu não posso sequer sonhar, nem você, nem ninguém. Eu sou cético quanto à idéia de que qualquer revelação maravilhosa que a ciência traga no futuro se torne uma religião histórica particular com que as pessoas têm sonhado. Quando começamos e conversamos sobre as origens do universo e as constantes físicas, eu propus o que eu pensei ser bons argumentos contra um designer inteligente sobrenatural. Parece-me uma idéia digna. Refutável – mas, no entanto, grande e abrangente o suficiente para ser digna de respeito. Não concebo os deuses do Olímpio ou Jesus vindo aqui e morrendo numa cruz como dignos ou grandiosos. Se existe um Deus, ele é um conjunto muito maior e muito mais incompreensível do que qualquer coisa que teólogos ou religiosos jamais propuseram.
 
Um debate entre Francis Collins e Richard Dawkins . O debate em sua versão original (inglês) encontra-se neste linkEste debate também está disponível em versão PDF, para baixá-la clique aqui.
 
Fonte: Da revista TIME. Traduzido para o português por Eliel Vieira  e Amauri Alves - Eliel Vieira
 

 

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